'Mas é preciso que se entenda, vidas perdidas, não serão recuperadas jamais', escreveram gestores

Figueredo assina carta em repúdio à fala de Bolsonaro na TV

Por Camila Ribeiro - Mídia News

O secretário Gilberto Figueiredo é um dos gestores estaduais de Saúde que assinam a carta em repúdio ao pronunciamento do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido), na noite de terça-feira (24), sobre a crise da Covid-19 (o novo coronavírus).

O presidente criticou o fechamento de escolas para combater a epidemia, atacou governadores e culpou a imprensa pelo que considera clima de histeria instalado no País. Ainda no discurso, Bolsonaro voltou a comparar a doença a uma "gripezinha" ou "resfriadinho".


Secretário de Saúde Gilberto Figueiredo / Reprodução

Na carta, os secretários estaduais de Saúde do Brasil disseram ter ficado “estarrecidos” com as declarações do presidente.

“Infelizmente o que vimos em seu pronunciamento foi uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira, as autoridades sanitárias de todo o País. Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro [Luiz Henrique Mandetta] e técnicos”, diz trecho da carta.

Assim como os demais secretários, Figueiredo entende que é preciso demonstrar à população a gravidade do momento que o País atravessa.

Os secretários alegam que todas as decisões e recomendações do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Ministério da Saúde têm se baseado em “evidências científicas, na realidade nacional e internacional e buscado inspiração nas melhores práticas e exemplos de condutas exitosas ao redor do mundo”.

Eles rebatem ainda as alegações de Bolsonaro dando conta de que algumas medidas estariam sendo adotadas de modo a enfraquecer seu Governo e com viés político.

“Não temos qualquer intenção de politizar o problema. Temos construído, sem dificuldade, independente de colorações partidárias, políticas e ideológicas, consensos para o bem do Sistema Único de Saúde (SUS) e, sobretudo com a saúde do povo brasileiro. Este é nosso compromisso. É isso que norteia nossas ações e esforços”, dizem os secretários.

“Já temos dificuldades demais para enfrentar. Não podemos permitir o dissenso e a dubiedade de condução do enfrentamento à Covid-19. Assim, é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República”.

Ainda na carta, os secretários afirmam que ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que os gestores da Saúde têm feito junto com o povo brasileiro, inclusive negando todas as recomendações tecnicamente embasadas, caberia ao presidente o papel de liderar a luta.

Bolsonaro, segundo eles, deveria “conduzir a nação para onde se espera de seu principal governante: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar”.

Por fim, os secretários dizem ter plena consciência de que, de fato, a crise trará uma grave recessão econômica ao Brasil e ao resto do Mundo, aprofundando as desigualdades sociais e empobrecimento.

De todo modo, observam, que a economia - com trabalho, disciplina, organização e espírito público - se recuperará.

“Mas é preciso que se entenda, vidas perdidas, não serão recuperadas jamais”, concluíram os secretários, reiterando o pedido para que a população permaneça em suas casas.

 

Leia carta na íntegra:

 "Carta dos Secretários Estaduais de Saúde do Brasil após
pronunciamento do Presidente da República

 

Assistimos estarrecidos ao pronunciamento em cadeia nacional do Presidente da República, Jair Bolsonaro.

 É preciso demonstrar ao Brasil as suas consequências e a necessidade de que a população perceba a gravidade do momento que estamos vivendo.

 Temos, juntamente com o Ministério da Saúde, os municípios e a própria sociedade brasileira, empreendido uma intensa luta no enfrentamento da Covid-19.

 Luta que envolve trabalho, sacrifício, solidariedade, empatia, compaixão com o sofrimento das pessoas e que depende de maneira imprescindível do alinhamento de entendimento e de ações, assim como da união de esforços e de uma direção única e firme.

 Todas as decisões e recomendações do Conass e do Ministério da Saúde têm se baseado em evidências científicas, na realidade nacional e internacional e buscado inspiração nas melhores práticas e exemplos de condutas exitosas ao redor do mundo.

 É este o esforço que temos empreendido em defesa de nossa pátria e de nossos irmãos e irmãs brasileiros. É dessa forma, desassombrada e corajosa, na direção correta que queremos seguir na missão de defender nossa gente.

 Não temos qualquer intenção de politizar o problema. Temos construído, sem dificuldade, independente de colorações partidárias, políticas e ideológicas, consensos para o bem do Sistema Único de Saúde – o SUS e, sobretudo com a saúde do povo brasileiro. Este é nosso compromisso. É isso que norteia nossas ações e esforços.

 Já temos dificuldades demais para enfrentar. 

 Não podemos permitir o dissenso e a dubiedade de condução do enfrentamento à Covid-19. Assim, é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República.

 Ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que temos feito junto com o povo brasileiro, negando todas as recomendações tecnicamente embasadas e defendidas, inclusive, pelo seu Ministério da Saúde, deveríamos ver o Presidente da República liderando a luta, contribuindo para este esforço e conduzindo a nação para onde se espera de seu principal governante: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar.

 Infelizmente o que vimos em seu pronunciamento foi uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira, as autoridades sanitárias de todo o país.

 Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e técnicos.

 Todo o apoio à atuação do Ministério da Saúde e sua equipe, que tem trabalhado técnica e cientificamente em todos os momentos. Com saúde não se pode brincar e nem fazer apostas, diante do risco que corremos. É preciso discernimento, coragem e determinação para liderar, unificar e auxiliar a nação a superar mais este desafio de Emergência em Saúde Pública.

 Temos plena consciência de que o Brasil e o mundo irá enfrentar uma grave recessão econômica, aprofundamento das desigualdades sociais e empobrecimento.

 A economia, com trabalho, disciplina, organização e espírito público, se recuperará. Seremos solidários e trabalharemos sem descanso para permitir uma rápida recuperação da nossa economia.

 Mas é preciso que se entenda, vidas perdidas, não serão recuperadas jamais.

 Que Deus abençoe cada um de nós que temos trabalhado intensivamente e dormido pouco.

 Que Deus abençoe e proteja todos os brasileiros e brasileiras.

 #ficaemcasa

 Secretários de Estado da Saúde do Brasil"

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