“Pandemia trará grande transformação, só não sabemos se será a desejada”

Pesquisadora analisa a emergência global de saúde como potencial transformador de experiências individuais e coletivas no Brasil e no mundo.

Por Safira Campos

Questionar-se para onde algo do porte da atual pandemia levará a humanidade tem sido tema de debate em diversos círculos. Noções como solidariedade, privilégio, fé e egoísmo serão alteradas pelas experiências vividas durante esse período? Passado e futuro serão vistos de forma diferente? Estudiosos por todo o mundo tem refletido sobre esses aspectos.

“Nada será como antes?” foi a pergunta chave que guiou a conversa com a prestigiada pesquisadora brasileira Vera França, durante a noite desta segunda-feira (27), num painel virtual organizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). 

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Pesquisadora Vera França / Foto: Ronaldo Milanez

França é coordenadora do GrisLab, Laboratório de Análise de Acontecimentos, um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que acompanha e analisa fenômenos da atualidade sob a perspectiva de sua repercussão na mídia e nas redes sociais. Para a estudiosa, é certo que a pandemia tratá transformações, mesmo que não sejam as esperadas. Outros acontecimentos históricos, que envolveram todo o globo, trouxeram grandes mudanças posteriores. 

“É possível perceber isso com as outras epidemias, com as guerras mundiais, etc. Sempre há uma grande transformação, mas nem sempre é a desejada. Depois da Primeira Guerra, vieram o fascismo e o nazismo, mas depois da Segunda Guerra, veio o fortalecimento da social-democracia. Então, grandes mudanças acontecem. A que vamos viver ainda está no horizonte”, reflete.

Apesar da incerteza do futuro, a pesquisadora aponta que algumas modificações já são perceptíveis no presente. O olhar do brasileiro para o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma deles. França argumenta que a defesa do ‘estado mínimo’ sai enfraquecida, à medida que o SUS desempenha um papel fundamental de salvar vidas. “A noção de ‘estado mínimo’ retira do Estado o controle sob algumas áreas, inclusive a saúde e o põe na mão da iniciativa privada. Mas o mercado não dá conta e por isso precisamos do Estado. Sem o SUS, os mais vulneráveis não teriam como se cuidar e isso está cada vez mais claro para a grande parte da população”.  

Além disso, a pesquisadora defende que a forma como cada sujeito vive a experiência da pandemia é capaz de criar um enquadramento diferente para o fenômeno. A partir disso, grupos ideológicos e políticos conseguem criar e difundir suas próprias perspectivas sobre a emergência global de saúde. Teorias da conspiração, como de que o vírus seria uma criação do governo chinês para implantar o Comunismo no mundo, ganham espaço justamente neste ponto. 

“O enquadramento que a gente escolhe determina a forma como a gente se posiciona, e por isso há o surgimento das mais diversas narrativas como conspiratórias, cosmológicas e espiritualistas em um momento como este.  Há uma muito interessante de que as pandemias seriam uma vingança ou resposta da natureza para ação destruidora do homem e aconteceriam a cada 100 anos aproximadamente. Para isso, eles utilizam como o argumento a peste bubônica e a gripe espanhola”. 

O fato é que a pandemia colocou boa parte da população mundial dentro de suas casas. A proximidade com o tema da morte, o medo, a ansiedade e ao convívio tão intenso com a família e consigo mesmo traz a esperança de que mudanças no âmbito pessoal possam refletir socialmente. “Certamente tudo isso trará mudanças na alma, alma no sentido de aquilo que nos anima, que dá fôlego à vida. Todo acontecimento caminha para a normalização. Neste momento ainda estamos distantes disso. O que nos resta é torcer por uma nova organização, por dias melhores”. 

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